Regressões Lineares

CEALA aplica técnicas de projeção de tendências de séries históricas em cooperação com pesquisa na Itália.

Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo,

que quer apoderar-se dela;

o dom de despertar no passado as centelhas da esperança

é privilégio do historiador convencido

de que também os mortos não estarão em segurança,

se o inimigo vencer.

E esse inimigo não tem cessado de vencer.

 

Walter Benjamim

 

Para que o espírito se torne sagaz,

Deve exercitar-se em investigar as mesmas coisas

que já foram encontradas por outros

e em percorrer com método todos os menos importantes artifícios dos homens,

e sobretudo aqueles que manifestam ou supõem.

 

René Descartes

Quando uma nação pobre e atrasada se torna politicamente independente, vem a descobrir que a independência política não significa que ela se encontra automaticamente no caminho do desenvolvimento econômico. Terá contra si processos sociais acumulativos que tendem a mantê-la na estagnação ou regressão: o jogo ‘natural’ das forças de mercado operará continuamente para aumentar as desigualdades internas e internacionais, enquanto o nível geral de seu desenvolvimento for baixo. Herda esse país uma economia de subsistência e, além disso, núcleos encravados de produção de bens primários para exportação. Para tornar-se capaz de importar os bens de capital de que necessita para a realização do seu desenvolvimento econômico, terá de forçar sua produção para exportar, seguindo as linhas tradicionais. O ‘bilateralismo compulsório’ está entrincheirado firmemente em toda a estrutura econômica. Apenas gradualmente se transformará em um sistema mais lucrativo de relações econômicas multilaterais com os mercados de todo o mundo. [...]. A grande vantagem que a libertação do domínio colonial trouxe foi a liberdade de organizar sua vida [...], e essa nova vantagem - a liberdade de interferir no jogo das forças de mercado - não será remunerativa a não ser que utilizada com inteligência e firmeza.  

 

MYRDAL, G. Teoria Econômica e Regiões Subdesenvolvidas. Rio de Janeiro: Editora Saga, 1968. pp. 100-101.

 

Aproveitamos o ensejo da contribuição do CEALA a uma pequisa italiana, na seara das ciências naturais, para advertir aos futurologistas e aos céticos nas ciências humanas, que existem opções analíticas que fogem dos desassisados da história enquanto ciência dos fatos em sua interdependência dialético-causal, que se vão fazendo, por um lado, doutos sem memória, enquanto se vão, por outro, tornando-se hermeticamente fechados na lógica-abstrata quantitativista ou, quando não, ousando ser mais substantivos, entrincheiram-se às técnicas de regressão do que pode ser quantificado, subindo ambos, de par em par, os degraus da elaboração de “projetos que tendem a se submeter a uma racionalidade sócio-política instrumental, onde se perde o sentido fundamental das tensões entre política e economia”, degraus do cadafalso das ciências sociais aplicadas. 

Um aparentemente científico argumento contra as análises de tendências históricas, hoje tão frequentemente utilizados pelos que creem que a humanidade anda de forma errática, apenas, são as inflexões de tendência, pois cumulam de fatos, contrários ao previsto, as mesas de anállise, cada dia mais céticas. Não há razão para tão brusco e ingrato renunciar da razão.

Trata-se de um comportamento raso, do ponto de vista epistemológico, históico e mesmo matemático, por ser empiricista. Falemos aqui das possibilidades, através de uma analogia geométrica simples, rigorosa e abstrata que todavia ilustra, com beleza e precisão, a essência do fenômeno das inflexões conservativas, típicas das inversões de tendências, que preservam a "lei de movimento" de certo período: o ponto de transição, ao longo de uma função contínua, do caráter côncavo ao convexo da curva, sem que a mesma perca o seu caráter crescente ou decrescente, a exemplo das raízes das funções tangentes. 

Sabe-se que mesmo uma função contínua não necessariamente é derivável em quaisquer dos seus pontos e que as flutuações mais ou menos erráticas das variáveis econômicas proporcionam representações gráficas repletas de acidentes ou limites extremos máximos e mínimos relativos e absolutos que desautorizam qualquer tentativa de diferenciação, além de sabermos que tais representações, a rigor, raramente são contínuas, mas discretas e, portanto, absolutamente impróprias à Análise.

 

Porém, em regra, nenhuma dessas dificuldades impede que o analista aproxime adequadamente as representações mais rigorosas dos dados empíricos às representações teóricas mais adequadas, revertendo um comportamento aparentemente errático numa tendência, as variáveis dispersas em uma linha, os extremos recalcitrantes em médias móveis, o caos em bacias de atratores fractais e assim por diante, a fim de obterem representações mais úteis dos fenômenos, então passíveis de análise matemática.

A característica mais elementar das funções quais a representada acima é a inversão, no trânsito da vizinhança anterior à posterior ao ponto de inflexão, do sinal da segunda derivada, determinada por uma especial mudança de convexidade da curva, que conserva o sinal da primeira derivada (o caráter crescente ou decrescente da reta que tangencia, sucessivamente, os infinitos pontos da curva). Essa é talvez a mais elementar representação de uma inversão das taxas de crescimento descrescentes às crescentes ou vice-versa, enquanto permanece inabalado o próprio crescimento ou decrescimento ao longo de uma função ou de um de seus intervalos.

As estilizações que, nestes termos, se fazem possíveis, guardam nítida semelhança com as concebidas dentro do marco metodológico das teorias da regulação e, em especial, parelham-se às estilizações de R. Boyer e J. Mistral. Em última análise, estas abordagens colimam dar conta dos processos seculares de transformação regulatória do próprio modo capitalista de produção.

No gráficos acima e abaixo estão representadas, pelas curvas de traço contínuo, as evoluções do custo de vida; pelas curvas pontilhadas, as do salário nominal e, pelas curvas tracejadas, as da produção.

Engana-se, todavia, quem achou que o acompanhamento destas variáveis demonstra algo no campo econômico. É o contrário. 
 

O que é central nas teorias da regulação é a importância dada ao papel de um modo de regulação. Um modo de regulação revela as formas concretas de expressão das relações sociais fundamentais nas quais as estratégias e as ações dos indivíduos e dos grupos se deploram. As relações sociais dividem os indivíduos e os grupos sociais, engendrando rivalidades, conflitos e contradições sociais. Um modo de regulação é um conjunto de instituições sociais ou de formas estruturais que codificam essas relações sociais fundamentais e dão uma expressão material contingente aos conflitos sociais. Essas formas estruturais tornam possível um comportamento estratégico que exprime as contradições sociais subjacentes. (BENKO, G. Economia, Espaço e Globalização: na Aurora do Século XXI. São Paulo: Hucitec, 1999. p. 112).

 

Se análogos estudos far-se-ão em alguma parte, sua acuidade científica e significância serão sempre relativos à qualidade e ao volume dos dados circunstancialmente manejados, que esperamos sejam não de todo escassos e apenas enobrecedores das fontes consultadas.Como bem lembrou O. Mongestern: "A mentira também pode tomar a forma de estatísticas literalmente 'corretas', porém funcional e operacionalmente falsas ou sem significado. As estatísticas deliberadamente falsas oferecem um problema mais sério com amplas ramificações no reino da teoria estatística, onde, não obstante, a natureza e conseqüência de tais estatísticas não parecem haver sido examinadas suficientemente."