O que o jovem não deve esquecer?

 

Por Rilton Primo*

“Pena que sejamos macroscópicos!”, resmunga o físico subatômico possesso pelas propriedades ondulatórias, corpusculares ou anti-materiais das novas mônadas. Esqueceu-se de que o todo é feito das partes, que apenas elas seriam indivisas, ao menos conceitualmente. Cadê sua eureca e hidrodinâmica? A gota se revolta com o oceano, só até saber-se água, onda e oceano também!

 

Morremos em um mundo eletroeletrônico, mas vivemos a pensar em outra ordem de grandeza. Isto dá erro. Se não no sistema eletromagnético de referência, na imbecilizada mente que passa anos pensando nas dinâmicas que não poderia jamais perceber, exceto de forma puro-abstrata. Para o filósofo, equivale ao deísmo nosso de cada dia, com a diferença de que é real e funciona. A pessoa não tem ereção quântica, clitóris digital, nem é “promovida” pelo diagrama de Pauling. Sua sexualidade é newtoniana, seu emprego, tudo; ela têm um 2.0, um 1.0, e delira com o m.C2; vive de auto-sugestões à Yi Jing, com a diferença de ser indutiva, vir de laboratórios e teoremas; seus pressupostos e leis operativas são insondáveis aos sentidos. Que religião precisa de mais?! Para que maior milagre que o controle remoto ou o mero imã? Espíritos, almas não são práticas. O cientista bale como o monge medievo: corpos se atraem de forma diretamente proporcional ao produto da massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância que os separa. Mas, se explica com acuidade ora o infinito, ora o infinitésimo, finge não ver a criança opressa. Isola-se em atos rudes de estupidez, egoísmo humano; mas que os corpos se atraem, se atraem.

 

Na prática, tem vários cientistas quadrúpedes-éticos vencendo até o caos com números fractais. Mas este próprio número irracional exige a irracionalidade, de si mesmo, em si mesma, e é só. Pertence a leis de ordenamento do real exteriores à ordem reversível, euclidiano-newtoniana. No entanto, ele pré-define as ordens práticas, sem exceção. Daí as onanistas do intelecto podem passar anos se acariciando, fazendo carreira, prosperando firma. Elas são o poder, e uma fraude. Estas mentalidades são o caput mortuum do que foi um dia a filosofia das ciências ou do mundo.

 

Apanhemos qualquer exemplo local, à avessa. O Temer, é ‘grande jurista’, e ‘constitucionalista’. Quando FHC e Lula se elegeram, Paris anunciou chegar ao poder um ‘marxista’ e um ‘comunista’. Em época de inversões, diria Lênin, é como pedir, ao passar um carro fúnebre: “oxalá haja mais!” Sócrates disse “teatrocrata” cada governo capaz da verossimilhança à parte da autoconsciência. Honestidade científica é assumir-se, como Aristóteles, um ser humano e, como tal, ser político. Como insistira Marx, os filósofos não brotam da terra como cogumelos, são frutos do seu tempo. Não lhes basta: Sócrates bebeu a cicuta, crápulas escolheram Barrabás, guilhotinaram Danton e Robespierre, queimaram viva Joana D’Arc em um auto de fé, exilaram Marx, atiraram em Lênin pelas costas, atiraram nos óculos de Lennon, abriram o crânio de Trotsky e assassinaram Gandhi. Envenenaram Reich, puseram Galileu de Joelhos; aos Diógenes e Heráclitos restou o autoexílio.

 

Se tivéssemos mais matemáticos renomados na política, ao invés de grandes “líderes”, dir-se-á! Mas ainda não tivemos a felicidade de conhecer tantos cientistas como líderes políticos viáveis. Libertações não foram tramadas pelos Arquimedes, mas o foram destruições, e reconstruções. Claro que Revoluções requerem, antes de mais nada, astúcia, astúcia e astúcia: são obras lógicas. E é inegável que no caso brasileiro seria melhor um Arquimedes em 2018 que um anti-geômetra. Mas não houve Euler inda para dar palpite em uma mera lauda de Lênin pois, como dizia Keynes, as partes quantificáveis da economia são relativamente fáceis comparadas com todas as demais.

 

Por falar do que pode ser matematizável, teatros empoderados, crimes hediondos... e o Brasil? P-Maior: cientista de exatas não é sinônimo de grande líder e inda que fosse um gênio político hoje precisamos mais do jovem crítico em filosofia-política que de tecnocratas servis à cupidez. P-Menor: há relação entre baixo desempenho em exatas do Brasil e nosso subdesenvolvimento, é claro, mas tal desempenho é antes consequência deste que sua causa - embora retroaja nele; é questão de educação, economia política e elas sobrepujam os âmbitos profissionais das exatas.

 

Atingimos o impasse que alguns observadores da cultura descreveram: estamos instados ao lado dos apocalípticos ou dos integrados, restando uma terceira via indefinida de militâncias críticas. Nem deveríamos tratar disto aqui, o que nos arroja a uma questão derivada da posta por Keynes: o ensino universal das ciências exatas serve ao crescimento econômico, não à felicidade plena; é a complexa dialógica dos fins que preside cada uma das lógicas parciais dos subsistemas meios.

 

Inda estamos na fase pré-iluminista da luta da fé contra a prova, do ignorar contra o know how. Queremos passar às demonstrações lógicas sem nos perguntarmos para quê, nem o porquê, nem para quem, nem quando ou onde, gerando o que aí está: uns países sabem quase tudo e a maioria quase nada. Dentro desses próprios países que oligopolizam as tecnologias uns tipos sabem fazer tudo de ponta e os demais não sabem fazer quase nada caro. Não há felicidade ou desenvolvimento nisto, exceto se você for o dono da IBM ou o ministro da indústria de Pequim. Aí, quanto mais Lobachevsky e Euclides circule no poder, melhor para o mundo inteiro (o deles). O nome disto é imperialismo, puro e simples. A matemática sempre serviu, antes de mais nada, para conceder um poder desigual ao homem sobre a natureza e os demais homens, a geometria para a geografia e esta, para fazer a guerra. Mas quando a Bomba-H cai, a culpa não é da física.  

 

Claro que Marx se tornou um matemático, estudou análise, revisou Euler, Lagrange e outros, quase o mesmo para Lênin e Keynes, e que eles deram grandes soluções para o mundo com uso da precisão lógica. Mas eles depositaram toda sua fé no que era mais humano, e por isto foram tão bem sucedidos e ao mesmo tempo tão perseguidos. São caluniados e distorcidos até hoje. Viveram em um mundo de logicistas imperialistas e este ainda é o caso. Relê-los é confessar-se: quando o G7 ouve falar em filosofia política, saca o supercomputador marcial, encerra o debate.

 

Não tenha dúvidas de que este é o cenário. O que brinca com física é como criança com plutônio. Os chineses não estão brincando, vão engolir o mundo empoderando os peritos em engenharias. Para alguns observadores, como Marcelo Alencar, professor titular da UFCG e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Telecomunicações (SBrT), “provavelmente o grande segredo da China esteja na proporção de Engenheiros no poder. Todos os membros do Comitê do Politiburo são Engenheiros. Hun Jintao, Presidente da República Popular da China, é Engenheiro Civil. Wen Jiabao, Premier do Conselho de Estado, e Luo Gan são Engenheiros de Minas. Huang Ju, Jia Qinglin, Li Changchun, Wu Bangguo, Wu Guanzheng e Zeng Qinghong são Engenheiros Eletricistas. O Brasil, em contrapartida, é o país do Advogados no Poder.” Que esperar daqui?!!! Os do G7 esperam que as exatas despolitizem e desalmem Pequim. Os mais humanos do mundo talvez esperem que Pequim, depois de pacificar seus impacientes adversários históricos, faça renascer a engenharia do coração do homem. Estes últimos não podem deixar de parecer uns otimistas religiosos da socialdemocracia neotaoísta leiga, ou uns mentecaptos comunas tardios. Quanto aos do G7, hoje é moda usar raspado o bigodinho de Hitler, se se preparam holocaustos. Estamos diante da maior escalada de violência imperial da história humana, e damos de ombros.  Pilhérias e futurologia à parte, o que quis dizer o autor d’O Pequeno Príncipe (o anti-Maquiavel) quando, em sua obra póstuma, Cidadela, afirmou queria vê-la erigida no coração dos homens?

 

Ainda não foram dissipadas do atual cenário das ciências as razões que levaram Keynes a ver no projeto da civilização algo frágil, defendido por não muito mais que meia-dúzia de mentes sérias. Precisamos refrescar a memória dos que faz mais de 16 anos estão repensando as subpartículas. Segundo o The Heidelberg Institute for International Conflict Research - HIIK, em 2008, para além das guerras do Afeganistão, Paquistão, Somália, Yêmen, Faixa de Gaza, Sri Lanka, outros 365 conflitos foram reconhecidos na forma de guerras internacionais ou limitadas, confrontos violentos e guerrilhas, contabilidade que se elevou a 396 em 2012 pelos 5 continentes, entre os quais dezoito guerras e 25 guerras limitadas, além de 43 conflitos altamente violentos e 165 crises violentas, batendo o recorde histórico de conflitos até antes detido pela II Guerra Mundial. Quando menos, como no Brasil, considerado em paz, morre-se até mais que em zonas de guerra.

 

Sim, não foram dissipadas do atual cenário das ciências as razões que levaram Lênin a ver, no neomonadismo anti-materialista da física avançada, o velho escapismo filosófico antediluviano. O empiriocriticismo, solipsismo e relativismo estão por toda parte, como uma praga epistêmica. Lênin usava o mote segundo o qual se até a geometria se chocasse com o interesse, ele a negaria. E assim chegamos no ponto mais alto da civilização das matemáticas a desconstruir tudo em pó. Enquanto os filhos do mundo dormem nas ruas, massacres e epidemias devastam campos ermos cada vez mais próximos dos nossos, os neonazistas usam seus bigodes de chocolate, milk-shake. Estão seguros de que o mundo que continha uma grande filosofia de si mesmo não mais existe.

 

Foram dissipadas do atual cenário, mas reeditadas, as razões que levaram o Marx moço a prever: “Está, pois, dilacerado o mundo que sucede a uma filosofia que continha tudo em si própria. É por isto que esta filosofia se mostra também dilacerada e contraditória; a sua generalidade objetiva manifesta-se nas formas subjetivas da consciência individual que lhes dá vida. As harpas vulgares soam tocadas por qualquer mão; as harpas eólicas apenas ressoam quando fustigadas pela tempestade. Mas ninguém se deixe enganar pela tempestade que sucede a uma grande filosofia, a uma filosofia do mundo.” Marx o escreveu nos trabalhos preparatórios do doutorado. Em 1949 Albert Einstein decidiu escrever um artigo chamado “Por que Socialismo?” e disparou: “Como o verdadeiro propósito do socialismo é precisamente superar a fase predatória do desenvolvimento humano e avançar para além dela, a Ciência Econômica em seu estado atual pode esclarecer bem pouco sobre a sociedade socialista do futuro. Em segundo lugar, o socialismo se direciona para uma finalidade socioética. A ciência, no entanto, não tem o poder de criar finalidades, e muito menos de instilá-las nos seres humanos; a ciência pode, no máximo, fornecer os meios com que atingir certas finalidades.” Os fins! Bigodes de chocolate radioativo! Já para Sócrates a ética não poderia ser ensinada; mas lhe perguntaram, certa vez, o que os jovens deveriam aprender. Ele tirava a resposta dos alunos: - O que o jovem não deve esquecer.

Publicado em 12/07/2016 no Portal Aldeia Nagô. O texto atual foi revista em 13/07/2016.

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*Consultor do CEALA

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