Contagem Regressiva:

O Século da Caracteroanálise

Por Rilton Primo* | 27 abril 2020

Em 1922, no escrito “Dois tipos narcisistas”, W. Reich diferenciaria as neuroses sintomáticas, com semiologia clara e definida (egodistônica) e as de caráter, com sintomas difusos, mesclados aos modos de ser dos indivíduos (egossintônicos), advertindo que, "como uma regra, a couraça narcísica aparece mais cedo ou mais tarde e requer toda a habilidade do analista para ser penetrada"** Em pouco mais de um ano o insight fará século.

A. Lowen desenvolveu as rotas biofísicas do professor Reich em N. York, que responde por suas bases conceitual, teórica e clínica. Não cabe aqui revisar a vasta literatura, mas seguem recortes de pontos significativos de um de seus principais livros-texto: Die Funktion des Orgasmus, retirados da 18ª edição brasileira devida à Brasiliense***.

Existem abordagens específicas e caso a caso ao lado das genéricas a diferentes tipos de neuroses, transtornos ou personalidades em situação de mal-estar, e.g., ansiedade, obsessivo-compulsão, narcisismo, psicose e, a mais subliminar hoje, a peste emocional. Os conhecimentos preliminares destas teorias, experimentos e casos clínicos oferecem visões apenas iniciáticas de processos de caracteroanálise e rotas clínicas alternativas.

 

No modo fácil, não raro tais abordagens envolvem massagens, como uma fisioterapia reversa do cérebro, onde a meta é abordar, a par da mente em si, os anéis musculares que controlam fluxos e os detém, do sistema gastrointestinal ao cardiovascular (Fig. 1, Fonte: Reich, op. cit.):

* Ensaista, consultor do CEALA.

**ALMEIDA, Bruno Prates and  ALBERTINI, Paulo. A noção de couraça na obra de Wilhelm Reich: publicações de 1920 a 1933. Psicol. USP [online]. 2014, vol.25, n.2 [cited  2020-04-27], pp.134-143. Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-65642014000200134&lng=en&nrm=iso>. ISSN 0103-6564.  https://doi.org/10.1590/0103-656420130040.

***REICH, Wilhelm. A Função do Orgasmo. 18ª ed. São Paulo, SP : Brasiliense, 1994.

Experimentos sustentam que há uma relação entre a psiqué profunda, inconsciente, e o aspecto visível da pessoa, através destes anéis, configurando o que se denomina couraça do caráter, no lado físico a par do comportamental, em finas interdependências.

 

No modo difícil, a análise deve correlacionar a psiqué e o corpo em níveis bioquímicos.

 

As Fig. 2, 3 e 4 (Id., Ibid.) articulam a bioquímica inversa dos sistemas simpático e parassimpático. É um sistema de compensação dinâmica, econômica e topográfica, à Reich, voltado ao equilíbrio psicossomático de energias contidas/livres, com limite físico-químico, que pode "travar".

A análise do caráter é a parte psicológica profunda, com atenção às clivagens, recalques ou desvios internos, cujas raízes são, por (re)definição, exógenas, com base na crítica caracterológica e bioenergética da teoria masoquista de matriz freudiana, em sua versãpo ortodoxa, que as presumia internas e intrínsecas à condição vital dos seres, como “instintos” mórbidos. Demonstrações laboratoriais de Reich descartaram a hipótese do instinto de morte endógeno, ponto de ruptura entre a caracteroanálise e a psicanálise especulativa de Freud.