PECAR EMPOBRECE, MAS QUEM?

11 de janeiro de 2017

                                                                                        Por Rilton Primo*

Dedicado à Profa. Vanessa Cavalcanti**

Uma anedota de um produtivismo eugênico, diriam uns, de um novo culto a Juggernaut[1], diriam outros, tem circulado nas redes sociais e blogs e seria indigna desta crítica, se não estivesse mobilizando, em campanha nacional, inclusive boas e ótimas cabeças, respectivamente, conforme capazes de estacar ante círculos viciosos e atacar proposições contraditórias, desprezar paralogismos interessantes ou evadir-se dos grupos de ídolos de Bacon, entre outras taxonomias: Idola Tribus (ídolos da tribo), que nos inclina às hipóteses convenientes, Idola Specus (ídolos da caverna), que distorce as evidências à luz das singularidades de cada olhar, Idola Fori (ídolos do foro ou de mercado), considerado o mais difícil de escapar, quando o erro está nas próprias palavras que tentam enunciar a hipótese e Idola Theatri (ídolos do teatro), onde o sistema lógico é falho ou corrompido. 

Já 28,6 mil home pages replicaram esta anedota anônima esta semana - fora as redes.

Embora inspirasse risos, na sua versão original, a galhofa fez-se doutrina, ciência política, moral e cívica, explicativa dos nove cânones pelos quais existiram, existem e existirão no futuro nações (e/ou classes) ricas e pobres, subvertendo as pesquisas de Adam Smith e David Ricardo!!

Sua tese inferior é a de que o subdesenvolvimento e o desenvolvimento independem da idade da nação, apesar de a histórica econômica geral ser um dilúvio de evidências desta correlação, o velho e o novo mundo convertidos em nações centrais e periféricas. A tese superior é culpar estes países pela rapacidade daqueles, por seus nove pecados:

 

1. Ética, como princípio básico.

2. Integridade.

3. Responsabilidade.

4. O respeito pela legislação e regulamentação.

5. O respeito da maioria dos cidadãos pelo direito.

6. O amor ao trabalho.

7. O esforço para poupar e investir.

8. A vontade de ser produtivo.

9. A pontualidade.

 

Conclui que nações (classes) ricas seguem o eneálogo na prática, as pobres na parole. Cita a Índia e o Egito como nações antigas, não ricas; Canadá e Austrália como novas, mas ricas. Complementarmente, diz que a riqueza das nações independe de recursos naturais, terra fértil, água, biodiversidade etc. Cita o Japão e a Suíça como nações minúsculas e quase inférteis do primeiro escalão financeiro global. Não explicou como se enriquece, sendo escravizado. Tampouco explicou como se progride, sendo colonizado; como se produz, sem insumos. Não apontou qualquer nação central sem crime organizado nacional e/ou internacional, sem tribunais parciais, sem histórico de guerras, demagogias religiosas e servidões involuntárias. Não explicou como as vantagens comparativo-competitivas são superadas com moralismos, nem como há parcimônia do nada.

 

Supõe que inexistem diferenças de raciocínio entre executivos de países ricos e pobres. Supõe que trabalhadores imigrantes de países pobres que, por «raça», seriam «fortemente preguiçosos» em seus míseros países de origem, tornar-se-iam forçosamente produtivos em países ricos como os da Europa, já que, segundo sua doutrinação, nos países pobres apenas uma pequena minoria seguiria o eneálogo em sua vida diária.

 

Não somos pobres porque nos falta recursos naturais ou porque a natureza foi cruel conosco. Somos pobres porque nos falta atitude. Falta-nos vontade de seguir e ensinar esses princípios de funcionamento das sociedades ricas e desenvolvidas. Estamos neste estado porque queremos levar vantagem sobre tudo e todos.

 

Mas quem disse que a natureza não foi generosa com as ex-colônias, até nos mercados futuros cobiçadas por riquezas e força laboral? Os processos de colonização e neocolonização, deterioração dos termos de troca dos bens e serviços importados/exportados e das relações de hegemonia e dependência centro-periferia, endividamento artificial, monopólios tecnológicos, cartéis científicos, aí desaparecem em nome de um discurso em que tenta rebaixar o moral dos vilipendiados, como na piada do sabão onde o escravo apanha para tentar erguer um peso superior ao que sua compleição física suportaria; depois apanha, por deixar o peso cair. Ai dos vencidos, diziam com o sabre no prato da balança.

 

Há um século nada era mais ridícula e extravagante que a hipótese de que os habitantes dos países subdesenvolvidos seriam menos éticos que os dos ricos, exceto a de que os países pobres seriam mais éticos que os ainda mais pobres que eles, até o último, onde unir-se-iam as almas mais pervertidas às miserandas, em dantescos anéis, sob os céus.

 

Nada mais digno de galhofa? Estória. Há algo realmente insuperável: a hipótese de que países ricos tenham pessoas mais produtivas, no sentido de trabalharem mais, pouparem e investirem mais. Na prática ou na teoria é o contrário. Nos países pobres trabalha-se muito mais, precisamente porque os investimentos que poupam horas e brio de trabalho e capital, mantendo o patamar salarial e as demais rendas, não são feitos nos subdesenvolvidos, como os em tecnologias de ponta e os em processos pós-industriais em geral, mas fora. E ainda pedem que divulguemos esta insípida negação das ciências das trocas desiguais entre os que, ipso facto, acabaram ficando mais ricos e outros mais pobres, trocas feitas, via violência colonial, depois via milicos neocoloniais, agentes etc.

 

É muito útil o mito de que o rico tem mais ética e valores civis que o pobre. Recalcula-se todos os anos que são as elites as que mais roubam e fraudam e repete-se que são elas as que, supostamente, menos precisariam fazê-lo, precisamente por já terem muito capital. Suposição bufa, já que as necessidades artificiais da ganância e do poder, porque insaciáveis, corrompem mais o ser humano do que a própria privação, que tem gerado gigantes Estoicos pelos séculos. Não fosse, a sonegação no Brasil não viria sendo sete vezes maior que toda a corrupção, os furtos e roubos fração irrisória desta. Os espécimes mais ilibados e prestimosos, menos especulam e, na ciranda dos lobos, terminam sendo os que menos embolsam. Querem inverter isto e acusar os Diógenes, da lassidão dos Neros; os Espártacos, da soberba dos andrógenos vencidos de Síbaris.

 

Tem-se então reunidos aqui, como no passado, os elementos para uma tragédia, que desempenhou na ciência do capital inicial aproximadamente o mesmo papel que o pecado original na teologia, lembra-nos o Cap. XXIV de O Capital de Marx: A lenda do pecado original teológico conta-nos, certamente, como o homem foi condenado a comer o seu pão no suor do seu rosto; a história do pecado original econômico [aqui travestida de um eneálogo], porém, revela-nos como é que há pessoas que não precisam fazê-lo.

 

Chegamos então ao ponto onde tudo começou, antes do qual não havia nações nem classes ricas e mais ociosas face às pobres mais laboriosas, de rendas redecuplicadas:

Adão deu uma dentada na maçã, e deste modo o pecado desceu sobre o gênero humano. A origem daquele é explicada ao ser contada como anedota do passado. Num tempo remoto havia, de um lado, uma elite diligente, inteligente, e sobretudo frugal, e do outro uma escumalha preguiçosa, que dissipava tudo o que tinha e mais. [...]. Mas é indiferente. Assim aconteceu que os primeiros acumularam riqueza e os segundos, por fim, nada tinham para vender a não ser a sua própria pele. E deste pecado original datam a pobreza da grande massa, a qual continua, a despeito de todo o trabalho, a não ter nada para vender a não ser a si própria, e a riqueza de uns poucos, a qual cresce continuamente, embora eles há muito tenham deixado de trabalhar. Esta chocha história para crianças conta-a ainda, p. ex., o senhor Thiers, com o ar sério das solenidades de Estado, aos Franceses outrora de espírito tão vivo, em defesa da propriété. Mas assim que a questão da propriedade está em jogo, torna-se dever sagrado manter o ponto de vista da cartilha infantil como o único justo para todas as classes etárias e etapas de desenvolvimento. Na história real é sabido que a conquista, a subjugação, o assassínio para roubar, numa palavra, a violência [Gewalt], desempenham o grande papel. Na suave economia política [como naquele eneálogo, seu excremento] reina desde sempre o idílio. Direito e «trabalho» foram desde sempre os únicos meios de enriquecimento, naturalmente com a exceção, todas as vezes repetida, de «este ano». De fato, os métodos da acumulação original [que liberou ativos para a formação do capital inicial] são tudo o que se quiser, só não são idílicos.

Os povos aparentemente luxentos (pois na maioria dos casos são apenas ostentadores que têm também suas classes média, pobre e excluída) são os que mais promovem mortes e sofrimentos. Promovem guerras e conflitos ao redor do mundo ao longo dos tempos e são escravizadores, pilhadores, invasores, saqueadores e tratantes hábeis. Para melhor lograr fraude, lança-se fumo. Deve-se um tanto à legião, outro ao Coliseu.

Nenhum melhor exemplo desta bufonaria rapaz, senão os próprios EUA. Não menos que 12 (doze) milhões de crianças perecendo muito abaixo da linha da pobreza; a maior população carcerária do mundo; o país mais belicoso; o maior aparato midiático, de TIC e redes sociais, subvertendo as éticas humanas nos receituários inessentes do elitismo.

 

As multinacionais pagam pelos mesmos serviços de engenharia salário bem diferente nos seus países e nos países pobres. Os economistas explicam que eles são pobres porque não investem, e não investem porque não poupam e não o fazem porque são pobres. Esta anedota patronal fazia rir e gemer aos pobres moribundos, desde o banzo.

 

 

E ri-se a orquestra irônica, estridente...

E da ronda fantástica a serpente  

Faz doudas espirais ...

Se o velho arqueja, se no chão resvala,  

Ouvem-se gritos... o chicote estala.

E voam mais e mais...  

 

Presa nos elos de uma só cadeia,  

A multidão faminta cambaleia,

E chora e dança ali!

Um de raiva delira, outro enlouquece,  

Outro, que martírios embrutece,

Cantando, geme e ri![2]

 

 

*Consultor em Ciências Sociais Aplicadas do Centro de Estudios por la Amistad de Latinoamérica, Ásia e África - CEALA.

** Professora e Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação de Família na Sociedade Contemporânea da Universidade Católica do Salvador - UCSAL.

Obs.: Primeira publicação no ALDEIA NAGÔ, confira: http://www.aldeianago.com.br/outros-baianos/15169-pecar-empobrece-por-rilton-primo-

 

[1] Consta que, quando da Índia colonizada, os ingleses missionários cristãos propagaram o mito de que os devotos hindus de Krishna chegavam ao ponto de, durante os festivais em homenagem aos poderes incontrastáveis do mundo, lançar-se sob as esmagadoras rodas de um carro alegórico para conseguir a salvação.

[2] Cf. Castro Alves, O Navio Negreiro.