A Nudez Retalhada

É difícil superestimar o papel que o recato teve na preservação da atração física passional. Superexpor o nu, como qualquer coisa, o torna insosso ou descatexizado (libidinalmente desinvestido), no jargão psicanalítico. Em uma frase - o nu é língua que a nudez não fala.

 

Um contra-argumento de peso seria que ninguém mais que o índio das Américas, Ásia e África soube fazer, da nudez ou semi-nudez do corpo, um cotidiano, sem deserotizar-se todavia, ao que caberia acrescentar, ao menos desde os estudos de Bronislaw Malinowski sobre a vida sexual dos habitantes melanésios das ilhas Trobiand na Nova Guiné, que todos amiúde souberam manter o nu libidinoso com microfísicas transpessoais (ritos de passagem, cortejos, arte, pinturas do corpo, adereços, danças, bangues, discrição sexual).

Por mais que convirjam, nestes aspectos, o primitivo e o pós-moderno, pouco ou nada há de comum entre o rico jogo simbólico da nudez primitiva com o fetichismo da atual, onde segue implícita a questão da mais-valia no domínio erótico, que o neolacanismo francês chamou de mais-de-prazer, extorsão ou alienação do nu, na qualidade de id.

 

Objetificado, o nu é despido às avessas, e se fecha. A antiguidade quase estetizou o corpo em marmoraria, proscrito nos códices da idade média, renascido à letra do humanismo, retratado a realismos até a panlogia mítica ou surreal, fetichizada e mercantil. A alta definição da reentrância e saliência, neoprimitivismo adstrito à primeiridade.

 

Amante... comece de algum ponto, como a supor por um instante que seu corpo seja seu inconsciente visível, aliás, como certa vez o definira a caracteroanálise de Wilhelm Reich. Claro, o corpo tem a parte consciente, que compõe com a outra os sistemas simpático e parassimpático como rios de psiquismos inconscientes, conscientes e pré-conscientes percorrendo terminações nervosas e órgãos, provocando do orgasmo ao enfarte, alterando estruturas musculares e estas as ósseas, dando forma definida e dinâmica ao nu, que já não converge ao apreensível sem a biofísica e, a rigor, sem ressintetizá-lo in abstracto.

 

Demais, é impossível regressar ao nu bruto, extinto há mais de uma dúzia de milênios, quando surgiu o ser humano tal como o conhecemos. Sim, é argumento contra o nudismo chão, recalcitrante de que o nu não seja a aparência finita e sensorial de um infinito em parte inacessível, apenas, pois é refluxo inteligente mesmo aí, podendo coerir objetos e representações muito mais tenazmente que os sentidos insensíveis ao gobal, radicular. Neste prisma, Drummond de Andrade foi certeiro em postular que a nudez é sempre incompleta, pois nunca se vê o corpo de todos os lados. Limites da geometria descritiva:

 

sublimes ossuários

sem ossos;

a morte sem os mortos;

a perfeita anulação do tempo em tempos vários,

essa nudez, enfim, além dos corpos,

a modelar campinas no vazio 

da alma

 

Nesta linha da representação simbólica das abstrações chegamos ao patamar no qual poesia e matemática avançadas são "ciências do olho", como para Johann Gauss e Charles Peirce. Antinomicamente, o inverso é ainda mais verdadeiro, como em Georg Hegel, para quem a nudez do corpo deixaria entrever algo que ultrapassa a aparência, embora o horizonte sensível e direto não apenas não seja a revelação do implícito como ainda o dissimule de forma que se apresenta como único representante do real e da verdade, pífia.

 

A nudez de si como nudez em si reverte a libido em catexia do objeto. De extraordinária a ordinária, a nudez se descolore em tons de cinza. Homem e mulher talhados em postas. Sua imagem adquire um padrão exotérico e é reduzida, por isto mesmo, ao que Paul Valéry chamaria de um deplorável estado cadaveroso, ao gosto de mortuárias práticas pedagógicas, por fim lançada no ataúde dos "bens simbólicos". Já daí se presta tanto ao chicote como ao afago; tanto às culturas físicas como a perfurações, bisturis, funerárias. São falangetas, tríceps, não são nada. Já daí que o varejo da moda fature R$ 170 bilhões anuais só no Brasil que embolsa, ainda, com a indústria erótica, aproximadamente R$ 800 milhões/ano, dados da Associação Brasileira de Empresas do Mercado Erótico (Abeme), setor que movimenta R$ 40 bilhões/ano nos EUA. Na vertigem em que há 30 mil usuários de pornografia na internet por segundo, a hecatombe do nu é um leilão de fancarias vivas.

 

Voltemos à pessoa fisicamente atraída, no sentido romântico do desejo, para o qual a pele é quase metafísica. Ela é uma esteta do invisível que se pode tocar ou não, razão pela qual enfrenta um dilema epistemológico ao ser obstetra, ginecologista, urologista, cirurgiã etc., operadores do que para si tem um só nome. A taxonomia é o cadáver da poesia, e da catexia. Daí a velha briga, como a narrou Manuel Bandeira, entre o poeta e o botânico, que para o primeiro não cessa de insultar as flores em latim. Mas as próprias filosofias do corpo, com abordagens da modernidade como base da visão emancipada da corporeidade, renovam as possibilidades tecnológicas da alienação erótica, como res ou sujeito parcial.

 

Tardou e muito a hora de revisar o conceito freudiano de nudez como Unheimlichkeit, de 1913, experiência de estranheza de estar diante de algo que não antecipamos como abordar, justo por ocorrer no campo limítrofe do que tem natureza incógnita e vem à luz. E há quem diga que esta subjetividade é o que a psicanálise evidencia como atrativo na nudez humana, traduzida em libido, ou, inversamente, ao objeto ou corpo no qual elas se investem, do que o ser humano não se atrairia pelo seu igual, mas só por estes retalhos. Sustentamos o oposto, que ainda quando aficionado pelos retalhos, é o ser humano que é buscado neles, não sendo os fetiches do nu senão extravios da atração integral pelo outro.

 

É necessário, portanto, ampliar aquele conceito de estranheza, diante da nudez, com o de reconhecimento do corpo como necessidade em si do outro, como na ontologia marxiana segundo a qual a relação erótica entre os seres humanos é a mais natural, indicando até onde o comportamento natural do homem se tornou humano e até que ponto sua essência humana se tornou essência natural para ele, até onde a natureza humana traduziu-se em libido, também mostrando em que medida as pulsões do corpo se tornaram a pulsão humana em geral e, consequentemente, em que grau a outra pessoa, como pessoa, se tornou uma de suas necessidades naturais, demonstrando em que extensão ela é, em sua existência individual, ao mesmo tempo, um ser social, a atração integral pulsão recíproca.

 

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No mês em que celebramos o Dia Internacional da Mulher, é a provocação do Centro de Estudios por la Amistad de Latinoamérica, Asia y África (CEALA).

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Rilton Primo e José Rodríguez 
Coordenação Geral e Técnica
CEALA